CONTOS DE FICÇÃO CIENTÍFICA

MA-HÔRE
(Raquel de Queiroz)

                                                                                   Para meu sobrinho Rogério

Foi num dia de sol, daqui a muitos anos. Ma-Hôre, o homúnculo, meio escondido atrás de um tufo de algas, espiava o navio espacial que boiava no mar tranquilo, como uma bala de prata. Em torno do nariz da nave quatro gigantes se afadigavam, vaporizando soldas, rebatendo emendas, respirando com força pelos aqua-lung que traziam às costas. Era a terceira daquelas naves que vinha pousar em Talôi, para espanto e temor dos aborígenes. Os homens da primeira haviam partido, logo depois de pousados, sem tentativa de aproximação. Os da segunda desembarcaram, fizeram gestos de amizade para os grupos de nativos que os espiavam de longe e, ao partir, deixaram presentes em terra – livros, instrumentos de ver ao longe, e outros, de utilidade ignorada. Esses presentes, todos de tamanho desproporcional à raça dos Zira-Nura, foram levados para o museu, arrastados como carcaças de bichos pré-históricos. E agora, a terceira nave viera boiar longe, em mar despovoado, a conservar avarias.

   Por acaso Ma-Hôre a descobrira, a relampejar toda prateada, ao sol. Vencendo o medo, nadou até mais perto: do lado esquerdo da nave não se via nenhum gigante, só uma imensa escotilha aberta, quase ao nível das ondas. Tremendo de excitação, Ma-Hôre nadou mais, até poder tocar com a mão o corpo metálico do engenho: teria alguma defesa elétrica? Não, não tinha. A borda redonda da escotilha ficava alto, mas dava para alcança-lo com o braço erguido: içou-se até lá, espiou dentro, não viu ninguém.

   Era tentação demais; Ma-Hôre não resistiu, ergueu mais o corpo na crista de uma mareta, escalou o que para ele era o alto muro da escotilha e, num salto rápido, já estava no interior da nave desconhecida, a água a lhe escorrer do cabelo metálico pelo corpo liso.

   Tudo lá dentro era feito na escala dos gigantes; a cabine parecia imensa aos olhos do pequeno humanoide. Mas ouvindo um ruído familiar, vindo de fora, ele correu a debruçar-se à escotilha: lá embaixo, na água, o golfinho da sua montaria erguia o focinho para o alto e silvava inquieto, a chamar o dono; Ma-Hôre debruçou-se mais, estendeu o braço curto, fez-lhe festas na cabeça maciça, depois o despediu com algumas palavras da sua branda linguagem aglutinante. O golfinho hesitou, mergulhou, emergiu e afinal afastou-se, num nado vagaroso, a mergulhar e aflorar, e a virar-se constantemente para trás. Porém Ma-Hôre não esperou que ele sumisse, no seu intenso desejo de ver “aquilo” por dentro. Os enormes assentos estufados, as vigas de cristal grosso, lá em cima; o painel de instrumentos que parecia tomar e encher toda a parede… De repente sentiu que parara o ruído dos instrumentos a operar no casco externo e escutou o trovejo das vozes dos gigantes que se aproximava. Tomado de pânico, o homúnculo ia fugir para a água, quando viu surgir na boca da escotilha uma das cabeças avermelhadas, logo seguida das outras três. Era tarde. Correu a se esconder sob um dos assentos; tremia de medo; que lhe fariam os astronautas gigantes se o apanhassem espionando a sua nave?

   Os homens pareciam exaustos, depois das longas horas passadas a remendar o casco avariado por um bólido. E, para aumentar o terror de Ma-Hôre, a primeira providência que tomaram foi rapidamente fechar as duas portas da escotilha. Logo puseram a funcionar a aparelhagem de ar-condicionado, restabelecendo o ambiente terrestre dentro da nave. Ma-Hôre se encolhia todo, sempre acocorado sob o estofo da poltrona. Preso, estava preso com as estranhas criaturas de rosto róseo e cabelo descorado, uma das quais tinha uma eriçada barba vermelha a lhe descer pelo pescoço. Já não se serviam mais dos aqua-lung. Que bicos estranhos! E quando falavam, com suas vozes ásperas, os tímpanos do homúnculo retiniam.

   Passados alguns minutos, Ma-Hôre, ainda escondido, começou a sentir-se mal. Dava-lhe uma tontura, parecia que estava bêbado, que tomara uma dose grande de male, a sua aguardente predileta, feita de amoras do mar… e quanto mais o ambiente se oxigenava, mais o pequeno visitante sentia a sua ebriedade se agravar. Agora o atacava uma irresistível vontade de rir, uma alegria irresponsável. Perdeu o medo dos gigantes, pôs-se a cantar; e afinal roubado de todo controle, saiu do esconderijo, rebentando de riso, rodopiando pelo tapete, a agitar os braços, dança que lembrava a dos pequenos diabos verdes que atormentavam os Zira-Nura nas horas do furacão.

   O ruído insólito despertou os astronautas do seu torpor de fadiga. Cuidaram primeiro que era o alto-falante, com alguma transmissão extemporânea. Mas deram com os olhos no pequeno humanoide, a dançar e rir, sacudindo a juba negra. Mitia, o caçula dos tripulantes e ainda um pouco criançola, disparou também numa gargalhada, contagiado, e tentou colher do tapete o anão intruso. Porém Ma-Hôre conseguiu fugir da mão enorme, que evidentemente receava machucá-lo, e continuou dançando e gargalhando. O navegador, Vitubov, ajoelhou-se no chão para o ver de mais perto:

   – Não disse que esses aborígenes eram anfíbios, comandante? Olhe os pés de pato!

   Mitia observou:

   – E como é pequenino! Será uma criança?

   Os outros também vieram se ajoelhar em torno, a contemplar o visitante que prosseguia no seu insano sapateado. De estatura não teria dois palinos. Os pés nus, de dedo interligados por  membranas, os braços curtos semelhantes a nadadeiras, terminados por mãos de quatro dedos, os cabelos que brilhavam num ardor metálico, como pelo de lontra, confirmavam a sua condição de anfíbio.A pele do corpo era de um grão mais grosso que a dos homens, lisa e cor de marfim. Os olhos enviesados, de cor indefinida, a boca larga, o nariz curto, pequenas orelhas redondas que a juba quase escondia.

   – Não, é pequeno, mas evidentemente se trata de um adulto – observou o comandante. – Que é que ele tem? Será louco?

   O copiloto, que também era médico da equipe, entendera o fenômeno:

   – Não, ele está bêbado com o nosso ar. Como a atmosfera dele é muito rarefeita, a nossa lhe faz o efeito de um gás hilariante. Vamos dar um jeito, senão ele  morre intoxicado.

   Mitia teve uma ideia: abriu a porta externa da escotilha, fechou a interna, até que a pequena câmara entre as duas se enchesse da atmosfera do planeta a que os terrestres davam o número de série W-65. Depois Mitia fechou a porta externa e carregou o homúnculo, já meio desmaiado, para o compartimento estanque que se enchera com seu ar natural. Ma-Hôre respirou fundo, como um quase afogado posto em terra; rapidamente se refez. Dentro em pouco já sentava, olhava em torno, e logo correu à porta externa: mas nem sequer alcançava a roda metálica que manobrava a escotilha. Pelo vidro que os separava da câmara de entrada, os tripulantes espiavam o seu clandestino. O comandante gostaria de levar para a Terra – mas, além de ser impossível mantê-lo todo o tempo ali, que fariam se esgotasse a provisão de ar apanhada em W-65?

   Akim Ilitch, o médico, se propôs então a fabricar um pequeno aqua-lung para o hóspede. E quanto ao ar – a segunda expedição que estivera ali levara uma amostra da atmosfera de W-65; eles tinham a fórmula. Seria fácil preparar uma dosagem idêntica, encher o balão do aqua-lung

   Ma-Hôre, ante a impossibilidade de fugir, encostava ao vidro divisório o seu rosto súplice, fazia gestos implorativos, articulava pedidos que ninguém podia escutar.

   Mitia pegou num papel, desenhou a figura de um homúnculo com aqua-lung às costas e o mostrou ao visitante, através da vidraça; em seguida apontou para Akim Ilitch, que já adaptava um pedaço de tubo plástico a um pequeno balão metálico, e depois o foi encher nas torneiras de ar-condicionado, regulando cuidadosamente as dosagens, com o olho na agulha dos dials. Ma-Hôre pareceu compreender – e mostrou-se mais calmo. Com pouco, Akim Ilitch abriu a porta e lhe ajustou às costas e ao nariz o improvisado aparelho respiratório. O homenzinho imediatamente lhe percebeu a utilidade e em breve circulava pela nave, amigável, curioso; por fim tirou do bolso do seu traje de pele de peixe um toco de grafite e puxou de sobre a mesa do navegador uma folha de papel. Mostrava para o desenho mais habilidade que Mitia e, com traços rápidos, desenhou a nave, a escotilha aberta; sobre essa escotilha desenhou-se a si mesmo, na atitude clássica do mergulhador, a pular para a água lá embaixo. Pedia para ir embora, é claro.

   Mas o comandante, fazendo que não entendia  a súplica desenhada de Ma-Hôre, deu algumas ordens rápidas aos tripulantes. Cada um ocupou seu posto; antes porém instalaram o pequeno hóspede que esperneava, recalcitrante, num assento improvisado com algumas almofadas. Sobre elas o ataram, embora Mitia, para tranquilizar um pouco o apavorado Ma-Hôre, lhe demonstrasse que eles também se prendiam com cinto dos assentos – que a medida era de segurança, não de violência. Dando provas da compreensão rápida que já mostrara antes, o Zira-Nura conformou-se. Ademais, o estrondo da partida, a terrível aceleração, o puseram a nocaute. Quando voltou a si, viu que a nave marchava serena como um astro e que Akim Ilitch lhe ajeitava, solicito, o conduto de ar do aqua-lung. Verificou também que estava solto. Em redor, os outros lhe sorriam. E o comandante, segurando-o pelo pescoço, como a um cachorrinho, pô-lo de pé sobre a mesa e lhe apontou para o vigia: no vasto céu escuro, um globo luminoso parecia fugir velozmente. O comandante apontou para o globo, falou algumas palavras e desenhou uns símbolos no papel. Escrevera a sigla W-65, e Ma-Hôre, embora não pudesse ler aquilo, tinha entendido. Porque voltando-se para o astronauta, com um ar de profunda mágoa, perguntou num murmúrio:

   – Talôi?

   Os outros é que não entenderam e o fixaram, interrogativos. Aí Ma-Hôre puxou o seu bastão de grafite e riscou nuns poucos traços uma paisagem de mar e terra, povoada de homúnculos à sua imagem. Mostrou-a aos poucos repetindo “Talôi”. Depois apontava o globo luminoso:

   – Talôi?

O comandante entendeu que aquele era o nome nativo de W-65. E gravemente concordou:

   – Sim, é Talôi.

                                         ***

A sorte, pensavam os astronautas, é que o seu pequeno cativo tinha o coração ligeiro ou filosófico. Porque depressa aceitou o irreparável e tratou de adaptar-se. Auxiliado pelos desenhos, com rapidez adquiriu um bom vocabulário na língua dos humanos. Tinha a inteligência ávida de um adolescente bem dotado. A sua simpatia, o seu humor tranquilo, também ajudavam.

A viagem era longa e, passado um mês, ele já falava e entendia tudo, e travava com os tripulantes compridas conversas. Ouvia coisas da Terra, com um ar maravilhado – as grandes cidades, as fábricas, as viagens espaciais, as fabulosas façanhas da técnica. E também contava coisas da sua gente que, na água, elemento dominante em nove décimos do pequeno planeta, passavam grande parte da sua vida.

   Fazia desenhos representando as aldeias com as suas casas de teto cônico, destinadas a protegê-los principalmente do sol, que os maltratava muito. Akim Ilitch quis saber se eles não faziam uso do fogo: pai de toda civilização humana na Terra. Não, Ma-Hôre explicou: a sua natureza anfíbia temia e detestava o fogo; talvez por isso os Zira-Nura, embora tão inteligentes, não se houvessem adiantado muito em civilização. Além do mais, o pouco oxigênio que tinham na atmosfera não facilitaria a ignição, sugeriu Virubov, o navegador.

   Mas já haviam descoberto a eletricidade e os metais que desprendem energia, como o rádio, e já usavam imperfeitamente. Como viviam em pequenas tribos e não se interessavam por disputas de território – o mar, fonte das matérias-primas, chegava para todos – , não se aplicavam a inventar armas de guerra; possuíam armas de caça e defesa destinadas a livrá-los das feras aquáticas – cetáceos, peixes e moluscos. Falavam uma língua harmoniosa que, aos ouvidos dos homens, lembrava o japonês. Cultivavam as artes escritas, principalmente a poesia, imprimindo livros com ideogramas da sua escrita – que Ma-Hôre reproduzia; usavam como papel folhas de papiro de campos submarinos. Gostavam de pintar, de esculpir, de cantar; e Ma-Hôre, depois de escutar com respeito da boca dos homens (que ainda não tinham perdido a mania da propaganda) a história da sobrevivência da civilização, explicava, com se pedisse desculpas, que dada as facilidades das suas condições de vida, os Zira-Nura tinham caminhado mais no sentido da arte que da técnica… O nome Zira-Nura queria dizer senhores da terra e do mar. Para justificar, domesticavam alguns animais – uma espécie de lontra minúscula que lhes fazia as vezes de cão,  e algumas aves para consumo doméstico. No mar, domesticavam uma variedade de golfinhos, que lhes servia de montaria, gado leiteiro e produtor de carne. No mais, eram monógamos, politeístas, democratas, discursadores, com uma elevada noção do próprio ego: e o comandante os definiu numa palavra única:

   – Uns gregos.

   Ao que a tripulação assentiu, no velho hábito da unanimidade: sim, uns gregos.

   A etapa seguinte na “educação” de Ma-Hôre notabilizou-se pelo seu intenso interesse pelo trabalho dos astronautas e pela rotina de bordo, especialmente pelo funcionamento e trato dos aparelhos de ar-condicionado, aos cuidados do seu predileto, Akim Ilitch. Logo assimilou o mecanismo delicado das dosagens, o manejo dos compressores. Pouco a pouco Akim Ilitch, divertido, já o deixava renovar sozinho a carga do balão do seu pequeno aqua-lung, cujo uso Ma-Hôre não podia dispensar. Para a noite, porém (ou antes, no intervalo dedicado ao sono, pois ali não havia dia nem noite), Mitia e o médico haviam transformado um pequeno armário embutido à parede em câmara estanque, cheios do ar adequado, onde o homenzinho dormia. Por iniciativa própria Ma-Hôre tomou a si o cuidado dos tanques hidropônicos, onde se fazia cultura de algas para purificação do ar e produção de alimentos frescos. Nessa hora, gostava de mergulhar longamente o rosto na água, fazendo funcionar as pequenas brânquias ressequidas. E também se ocupava com vários outros pequenos serviços dentro da nave, amável e diligente.

   No tédio da longa travessia os homens tomavam gosto pela instrução daquele aprendiz tão solícito. E ele, depois que o mecanismo da aeração não lhe escondia mais nenhum segredo, dedicou-se à navegação. Ficava longas horas ao lado de Virubov enquanto o navegador anotava mapas e conferia cálculos. Mas não entendia nada, queixava-se e, Virubov o consolava dizendo que ele carecia do indispensável preparo matemático. Ma-Hôre porém insistia em saber: era mesmo dali que dependia a orientação da nave, o seu rumo para a distante Terra? E tal era o seu empenho em compreender, que certo dia o comandante o pegou pela mão e o levou ao santo dos santos: o cérebro eletrônico da nave. Explicou que seria impossível orientar a rota nas distâncias do infinito como quem dirige uma simples máquina voadora. O menor erro de cálculo daria um desvio de milhões de quilômetros. Só o cérebro poderia pilotar a nave: naquela fita de papel perfurado lhe eram fornecidos os dados, e o maravilhoso engenho eletrônico controlava tudo até a chegada.

   Daquela hora e diante, Ma-Hôre se declarou o escravo do cérebro. Limpava-o, polia os metais expostos, estava sempre presente e atento quando o comandante vinha fazer o seu controle diário. Os companheiros diziam rindo que quando chegassem à Terra lhe dariam um cérebro eletrônico como esposa. Ma-Hôre sorria também, mas com um estranho brilho nos olhos enviesados.

                                        ***                                       

A viagem se alongava, infindável. Era tudo tão sereno, dentro da nave, que a disciplina relaxara e ninguém dormia mais em turnos alterados de repouso, de dois em dois. Todos dormiam à “noite”, e de “dia” faziam refeições regulares, almoço, jantar e ceia, numa agradável rotina doméstica. Naquela “noite” repousavam todos, pois quando Ma-Hôre, com seu aqua-lung posto, abriu sutilmente a porta da cabine condicionada.Visitou os tripulantes nos seus beliches: dormiam, sim. Dirigiu-se em seguida ao aparelho condicionador do ar e mudou a posição dos botões de dosagem. Em breve um cheiro forte encheu a nave e Ma-Hôre voltou a sua cabina, onde esperou uma hora. Pôs de novo o aqua-lung e saiu. De um a um tateou o pulso dos astronautas: não batiam mais. Por segurança, Ma-Hôre esperou mais meia hora e fez o segundo exame: os homens estavam mortos, bem mortos.

   Com gestos seguros, ele abriu uma válvula e deixou que se escapasse para fora o ar envenenado; findo o quê, regulou o preparo de um ar novo – o bom, o doce ar de Talôi. Libertado do aqua-lung, respirou forte e fundo, com um sorriso feliz.

   Cantarolando, dirigiu-se ao cérebro eletrônico: e repetiu, como num rito, as complicadas manobras que o comandante lhe ensinara para o deter. Copiou numa fita nova, cuidadosamente invertidos, os dados com que o cérebro fora alimentado de W-65 até aquele ponto. Pôs a fita na fenda, apertou os botões – fiel ao que aprendera do pobre comandante, agora ali morto, com o rosto esfogueado pela braba ruiva.

   E afinal foi espiar pela vigia, para ver se o céu mudara na marcha de regresso para a terra dos Zira-Nura.

 

                                                                                                  Primeira publicação:

                                 Dórea, Gumercindo Rocha (org.). Histórias do acontecerá.

                                                      Rio de Janeiro: Edições GRD, 1961.

Conto retirado do livro: Páginas do Futuro – Contos brasileiros de ficção científica – Org. Braulio Tavares – Ed.Casa da palavra – 2011

 

O TEMPO É UM CARRASCO IMPIEDOSO

(Ivan Carlos Regina)

 

Quando o Professor V. Neumman acabou de soldar o derradeiro circuito integrado da placa de comando de sua máquina do tempo, estava coroando um trabalho que havia lhe custado seus últimos dez anos de vida. Finalmente terminei, pensou. Não vejo a hora de dar a notícia à Meire. Esta era sua esposa já há oito anos, ao longo dos quais o Professor havia negligenciado seus deveres conjugais em prol do desenvolvimento da ciência.

 

Pela primeira vez abandonando seu ar carrancudo e concentrado, Neumman tomou um táxi para surpreender sua mulher chegando cedo em casa. Seu plano era convidá-la para jantar e depois, quem sabe, até uma noite memorável. Livre das equações que lhe pesavam no cérebro e que estavam agora consubstanciadas na reluzente engenhoca no laboratório, a carne reclamava seus direitos.

 

Romântico, o Professor parou na floricultura da esquina da sua casa e comprou um ramalhete de flores silvestres brancas, azuis, roxas e amarelas. Entrou pela porta dos fundos e viu Meire no colo do caseiro, um enorme negro chamado Radamés. Ela vestia uma camisola de sela cor de rosa e beijava seu amante na boca.

 

Von Professor era um homem racional. Retornou ao laboratório, desenvolveu os cálculos necessários e voltou ao passado, onde, com um tiro certeiro, matou o pai de Radamés aos cinco anos de idade. “Estou livre e novamente serei feliz”.

 

Ao chegar em casa agora sorrateiramente o Professor viu que sua mulher e seu amante estavam na mesma cadeira. Só o que mudara era que agora ela tinha os seios nus.

 

Von Professor era um homem racional. Retornou ao laboratório, desenvolveu os cálculos necessários e voltou ao passado, onde, com um tiro certeiro, matou o pai de Meire aos cinco anos de idade. “Estou livre e novamente serei feliz”.

 

Ao chegar em casa sorrateiramente o Professor viu que sua mulher e seu amante estavam na mesma cadeira. Só o que mudara era que agora ela estava completamente nua.

 

Von Professor era um homem racional, mas sabia quando estava derrotado. Antes de ser um infeliz, pensou, é melhor não existir. Retornou ao laboratório, desenvolveu os cálculos necessários e voltou ao passado, onde, com um tiro certeiro, matou seu próprio pai aos cinco anos de idade.

 

Finalmente, o Professor V. Neumman, sentindo-se aliviado, decidiu entrar em casa pela frente. Agora, sim, estou preparado para enfrentar a infidelidade. Quando abriu a porta, porém, descobriu que alguma equação havia sempre lhe escapado.

 

Radamés estava sentado na mesma cadeira, e, em seu colo, vestindo uma camisola de seda cor de rosa, beijando-o na boca, encontrava-se o Professor V. Neumman. Em suas mãos, um ramalhete de flores  silvestres brancas, azuis, roxas e amarelas.

 

Conto retirado do livro: “O Fruto Maduro da Civilização” de Ivan Carlos Regina

 

 

QUE PENA!

 (ISAAC ASIMOV)

AS TRÊS LEIS DA ROBÓTICA

1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum tipo de mal.

2. Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, a não ser que entrem em conflito com a Primeira Lei.

3. Um robô deve proteger a própria existência, a não ser que essa proteção entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.

 

   Gregory Arnfeld não estava propriamente moribundo, mas não lhe restava muito tempo de vida. Tinha um câncer inoperável e havia recusado com firmeza todas as sugestões para que tentasse um tratamento de radiação ou quimioterapia.

Sorriu para a mulher, sem levantar a cabeça do travesseiro, e disse:

– Sou o caso perfeito, Tertia. Mike cuidará de mim. Tertia não sorriu.

Parecia terrivelmente preocupada.

– Existem tantas coisas que podem ser feitas, George. Mike deve ser considerado como o último recurso. Talvez não haja necessidade de usá-lo.

– Não, não… quando acabarem de me afogar com produtos químicos e de me encharcar de radiação, estarei tão doente que não será um teste justo.

– Estamos no século XXII, Greg. Existem tantos tratamentos para o câncer…

– Verdade, mas Mike é um deles, e o melhor, na minha opinião. Estamos no século XXII e sabemos do que os robôs são capazes. Eu, pelo menos, sei muito bem. Sou a pessoa mais chegada a Mike. Você sabe disso.

– Sei, mas não deve usá-lo apenas por orgulho. Além disso, como pode ter tanta confiança na miniaturização? É uma ciência ainda mais nova que a robótica.

Arnfeld assentiu.

– De acordo, Tertia, mas os rapazes da miniaturização me parecem extremamente confiantes. Podem diminuir a constante de Planck ou fazê-la voltar ao normal de forma quase rotineira e os controles que tornam isso possível foram implantados no corpo de Mike. Ele pode aumentar ou diminuir de tamanho à vontade, sem afetar as coisas que o cercam.

– De forma quase rotineira – repetiu Tertia, com ironia.

– Isso é tudo que podemos pedir, na verdade. Pense nisso, Tertia. Tenho sorte de ser parte da experiência. Vou passar para a história como o principal responsável pelo projeto de Mike, mas isso será secundário. Meu maior feito será o de ter sido tratado com sucesso por um mini-robô… e por minha livre e espontânea vontade.

– Sabe que é perigoso.

– Tudo na vida é perigoso. Os remédios e a radiação têm graves efeitos colaterais. Podem retardar a progressão da doença, sem curá-la. Ficarei reduzido a uma existência limitada, quase vegetativa. E se não fizer nada, certamente morrerei em pouco tempo. Por outro lado, se Mike cumprir a sua missão, minha saúde voltará ao normal, e se houver uma recaída, bastará recorrer novamente a ele.

Estendeu a mão para segurar a da esposa.

– Tertia, sabíamos que o momento estava próximo, eu e você. Vamos tirar proveito desta oportunidade… será uma experiência gloriosa. Mesmo se alguma coisa der errado (o que não vai acontecer), será uma experiência gloriosa.

Louis Secundo, do grupo de miniaturização, disse:

– Não, Sra. Arnfeld. Não podemos garantir o sucesso. O processo de miniaturização está intimamente ligado à mecânica quântica e portanto existe uma componente probabilística. Enquanto o MIK-27 estiver diminuindo de tamanho, há sempre a possibilidade de ocorrer uma expansão súbita, não planejada, o que naturalmente matará o… o paciente. Quanto maior a redução de tamanho, quanto menor o robô se tornar, maior a probabilidade de que essa expansão ocorra. E quando ele começar a voltar ao tamanho normal, a probabilidade de uma expansão descontrolada será ainda maior. Na verdade, essa será a fase mais perigosa de toda a experiência.

Tertia sacudiu a cabeça.

– Acha que isso vai acontecer?

– É muito pouco provável, Sra. Arnfeld, mas não impossível. É preciso que a senhora compreenda isso.

– O Dr. Arnfeld está a par da situação?

– Sem sombra de dúvida. Discutimos exaustivamente todo o processo. Ele acha que o risco é perfeitamente justificado, nas circunstâncias atuais. Hesitou.

– E nós também. Sei que a senhora vai dizer que não somos nós que estamos correndo o risco, mas isso não é verdade para todos e mesmo assim achamos que vale a pena fazer a experiência. Nós e o Dr. Arnfeld.

– E se Mike for reduzido a um tamanho pequeno demais por causa de algum erro ou falha no mecanismo? Nesse caso, a expansão súbita seria inevitável, não seria?

– Não exatamente. Continuaria a ser um fenômeno estatístico. A probabilidade aumenta à medida que o tamanho de Mike diminui. Entretanto, quanto menor ele se torna, menor a sua massa. A partir de um certo ponto, a massa do robô ficará tão pequena que qualquer movimento o fará sair voando com uma velocidade próxima da luz.

– E isso não mataria meu marido?

– Não. A essa altura, Mike seria tão pequeno que poderia passar por entre os átomos do doutor sem afetá-los.

– Mas qual seria a probabilidade de que ele sofresse uma expansão súbita ao atingir um tamanho tão reduzido?

– Quando o MIK-27 chegasse ao tamanho de um neutrino, digamos, sua meia vida seria de alguns segundos. Em outras palavras, haveria uma probabilidade

de cinquenta por cento de que sofresse uma expansão dentro de alguns segundos, mas a essa altura já estaria a uma distância de centenas de milhares de quilômetros da Terra, em pleno espaço sideral, de modo que a explosão resultante produziria apenas uma pequena chuva de raios gama para intrigar os astrônomos. Só que nada disso vai acontecer. O MIK-27 vai seguir as instruções e reduzir-se apenas ao tamanho necessário para realizar a operação.

A Sra. Arnfeld sabia que mais cedo ou mais tarde seria forçada a encarar os repórteres.Recusara-se terminantemente a aparecer na holovisão, protegida pelo direito de privacidade que a Constituição Mundial lhe garantia. Entretanto, não podia continuar se negando a conceder uma entrevista; a constituição também garantia alguns direitos à imprensa.

No momento, estava sentada rigidamente, diante de uma repórter jovem e agressiva.

– Deixando de lado tudo isso, Sra. Arnfeld, não é uma coincidência incrível que o seu marido, o principal responsável pelo projeto de Mike, o Micro-Robô, seja

também o primeiro paciente?

– Pelo contrário, Srta. Roth – disse a Sra. Arnfeld, com ar cansado. – Existe uma predisposição genética para a doença do meu marido. Ele não é o primeiro da família a sofrer de câncer. Contou-me a respeito antes de nos casarmos e essa foi uma das razões pelas quais decidimos não ter filhos. Foi por isso também que meu marido se dedicou com tanto afinco à tarefa de construir um robô capaz de miniaturizar-se. Sempre se considerou como um paciente em potencial…

A Sra. Arnfeld insistiu em conversar com Mike e, nas circunstâncias, seria impossível deixar de atendê-la. Ben Johannes, que havia trabalhado com o marido durante cinco anos, e que ela conhecia suficientemente bem para chamá-lo pelo primeiro nome, foi com ela até o alojamento do robô.

A Sra. Arnfeld conhecera Mike pouco depois de o robô ter ficado pronto, quando estava sendo submetido aos primeiros testes, e Mike se lembrava dela. Ele

disse, na sua voz curiosamente neutra, impessoal demais para parecer humana:

– Prazer em vê-la, Sra. Arnfeld.

Não era um robô bem-proporcionado. A cabeça era muito pequena, os quadris largos demais. Tinha uma forma quase cônica, com o vértice para cima. A Sra. Arnfeld sabia que isso se devia ao fato de o mecanismo de miniaturizacão estar localizado no abdorne, juntamente com o cérebro, o que aumentava a rapidez dos reflexos. Como o marido lhe explicara, seria um antropomorfismo tolo insistir em instalar o cérebro na parte superior da máquina. Entretanto, a forma escolhida fazia Mike parecer ridículo, quase um retardado mental. Havia vantagens psicológicas no antropomorfismo, pensou a Sra. Arnfeld, pouco à vontade.

– Tem certeza de que compreende bem qual é sua missão, Mike? –

perguntou a Sra. Arnfeld.

– Compreendo perfeitamente, Sra. Arnfeld – respondeu Mike. – Devo eliminar todas as células cancerosas.

– Não sei se Gregory lhe explicou – interveio Johannes -, mas quando Mike estiver do tamanho certo, poderá reconhecer facilmente as células cancerosas e matá-las, destruindo o núcleo.

– Sou equipado com laser, Sra. Arnfeld – declarou Mike, com orgulho.

– Pode ser, mas existem milhões de células cancerosas. Quanto tempo vai levar para destruí-las uma por uma?

– Não necessariamente uma por uma, Tertia – protestou Johannes. –

Embora o câncer esteja disseminado pelo organismo, ele existe sob a forma de

pequenos tumores. Mike pode seccionar os capilares que irrigam esses tumores, eliminando milhões de células de cada vez. O número de células que terão que ser destruídas individualmente não chega a ser proibitivo.

– Mesmo assim, quanto tempo vai levar?

O rosto jovem de Johannes se contraiu, como se estivesse tendo dificuldades para decidir o que dizer.

– Pode levar várias horas, Tertia, se quisermos fazer um serviço bem-feito.

– E cada segundo a mais aumentará a probabilidade de que haja uma expansão explosiva.

– Sra. Arnfeld, farei o possível para que essa expansão não ocorra – afirmou

Mike.

A Sra. Arnfeld se voltou para o robô.

– Você pode fazer isso, Mike? – perguntou, com voz tensa. Existe alguma forma de impedir a expansão?

– Não exatamente, Sra. Arnfeld, mas se estiver atento ao meu tamanho e procurar mantê-lo constante, poderei minimizar as flutuações aleatórias que

poderiam levar a uma expansão explosiva. Naturalmente, é quase impossível fazer isso quando estou voltando ao meu tamanho normal.

– Sim, eu sei. Meu marido me disse que a fase de expansão é a mais perigosa. Mas você vai fazer o possível para que tudo corra bem, não é, Mike?

– As leis da robótica asseguram isso, Sra. Arnfeld – disse Mike, em tom

solene.

Quando estavam saindo, Johannes comentou, no que a Sra. Arnfeld interpretou como uma tentativa de tranquilizá-la:

– A verdade, Tertia, é que dispomos de uma holossonografia e uma tomografia de alta resolução de toda a região afetada. Mike conhece a localização exata das lesões cancerosas mais importantes. Vai perder algum tempo procurando

as lesões menores, que não podem ser detectadas por nossos instrumentos, mas isso não pode ser evitado; não queremos que sobreviva nenhuma célula cancerosa.

Entretanto, Mike tem recomendações severas para não reduzir o seu tamanho além de um certo limite, e pode ter certeza de que esse limite será respeitado. Afinal, um robô é feito para obedecer ordens.

– E a expansão, Bem?

– Aí, Tertia, ficaremos à mercê dos quanta. Não há maneira de prevermos com exatidão o que poderá acontecer, mas acredito que haja uma probabilidade razoável de recuperarmos Mike sem problemas. Naturalmente, vamos expandi-lo o mínimo possível dentro do corpo de Gregory… apenas o suficiente para podermos localizá-lo e extraí-lo. Em seguida, será levado para uma sala especial, onde terá lugar o resto da expansão. Você sabe muito bem, Tertia, que toda cirurgia envolve um certo risco, mas…

Quando a miniaturização de Mike começou, a Sra. Arnfeld estava na sala de observação, junto com as câmeras de holovisão e representantes dos meios de comunicação. A importância da experiência tornava inevitável a presença de

repórteres, mas a Sra. Arnfeld se havia refugiado em um canto do aposento, em companhia de Johannes, com a garantia de que não seria assediada pela imprensa, especialmente se ocorresse algum contratempo. Se houvesse uma expansão explosiva, a sala de operação iria pelos ares e todos os ocupantes teriam morte imediata. Não era à toa que ficava no subsolo, a quinhentos metros de distância da sala de observação.

De certa forma, a Sra. Arnfeld se sentia mais tranquila por saber que os três miniaturistas que trabalhavam no processo (com muita calma, ao que parecia) teriam uma morte tão horrível quanto a do marido caso ocorresse…  algum contratempo. Podia ter certeza, portanto, de que conduziriam toda a operação da forma mais cautelosa possível.

Naturalmente, se a experiência fosse bem-sucedida, todo o processo acabaria por ser automatizado, e daí por diante o paciente passaria a ser o único a correr algum tipo de risco. Nesse caso, a probabilidade de algum acidente provocado por negligência tenderia a aumentar. Aquele dia, porém, ainda estava distante. A Sra. Arnfeld olhou para o trio, procurando, sem sucesso, algum sinal de nervosismo.

Observou o processo de miniaturização (não era a primeira vez) e viu Mike

diminuir de tamanho até desaparecer. Viu quando o robô foi injetado no corpo do marido. (Haviam explicado a ela que o custo de injetar seres humanos em um submarino seria proibitivo; Mike, pelo menos, não precisava respirar.)

De repente, a imagem na tela mudou. Agora estava vendo uma holossonografia do corpo do marido. Era uma representação tridimensional, um pouco fora de foco por causa dos efeitos combinados do comprimento finito das ondas sonoras e do movimento browniano. Mesmo assim, podia acompanhar o progresso de Mike através dos vasos sanguíneos de Gregory Arnfeld. Era quase impossível saber o que o robô estava fazendo, mas Johannes descreveu os acontecimentos, em voz baixa, até que ela não aguentou mais e pediu para sair.

Quando Johannes chegou para vê-la, a Sra. Arnfeld estava acabando de acordar, após dormir o dia inteiro por causa de um sedativo que lhe haviam

administrado. Levou apenas um momento para se refazer e perguntar, em tom

assustado:

– Que aconteceu?

– Sucesso – apressou-se a responder Johannes. – Sucesso total. Seu marido está curado. Não podemos garantir que o câncer não tornará a aparecer, mas no momento ele está totalmente curado.

– Que bom! – exclamou a Sra. Arnfeld, aliviada.

– Por outro lado, uma coisa inesperada aconteceu… uma coisa que terá que ser explicada para George… achamos que seria melhor você explicar a ele.

– Eu? – perguntou a Sra. Arnfeld. E acrescentou, novamente preocupada: – Que aconteceu?

Johannes lhe contou.

Passaram-se dois dias antes que pudesse conversar com o marido. Ele estava sentado na cama, um pouco pálido, mas com um sorriso nos lábios.

– Nasci de novo, Tertia – disse, radiante.

– É verdade, Greg. Eu estava errada. A experiência foi um sucesso e, pelo que me disseram, não restou nenhuma célula cancerosa no seu corpo.

– Não vamos exagerar. Pode haver uma célula cancerosa aqui ou ali, mas provavelmente meu sistema imunológico dará conta do recado, ainda mais com a ajuda dos remédios que estou tomando. Seja como for, se eu tiver uma recaída, daqui a alguns anos, usaremos Mike de novo.

Nesse ponto, Arnfeld franziu a testa e disse:

– Sabe de uma coisa? Ainda não falei com Mike. A Sra. Arnfeld manteve um silêncio discreto.

– Vocês estão me escondendo alguma coisa – disse Arnfeld.

– Ainda está muito fraco, querido. Precisa de tempo para se recuperar.

– Se estou suficientemente forte para ver você, estou suficientemente forte para falar com Mike, pelo menos o tempo suficiente para agradecer-lhe pelo que

fez.

– Um robô não espera agradecimentos.

– Claro que não, mas sou eu que faço questão. Faça-me um favor, Tertia, vá dizer a eles que quero falar com Mike imediatamente.

A Sra. Arnfeld hesitou por um momento e depois tomou uma decisão.

Esperar mais seria pior para todos os envolvidos.

– Acontece, querido, que não vai poder falar com Mike – disse, cautelosamente.

– Não vou? Por quê?

– Mike teve que tomar um decisão difícil, querido. Tinha acabado de fazer um trabalho excelente, nisso todos estão de acordo. Faltava apenas voltar ao tamanho normal. Acontece que essa era exatamente a parte mais arriscada da missão.

– É verdade, mas tudo deu certo. Afinal, não estou aqui? Por que está fazendo tantos rodeios?

– Mike decidiu minimizar o risco.

– É claro. O que foi que ele fez?

– O que ele fez, querido, foi diminuir ainda mais de tamanho.

– O quê?! Impossível! Tinha ordens expressas para não fazer isso!

– Obedecer a ordens é a Segunda Lei, Greg. A Primeira Lei tem precedência. Mike queria ter certeza de que você não correria nenhum risco. O que fez foi diminuir de tamanho o mais depressa que pôde; quando sua massa estava

muito menor que a de um elétron, usou o gerador de raio laser, que a essa altura era pequeno demais para causar algum dano a você, e o coice o fez sair voando quase tão depressa quanto a luz. Ele explodiu no espaço. Os raios gama foram detectados.

Arnfeld ficou olhando para ela.

– Não pode estar falando sério! Mike não existe mais?

– Foi isso que aconteceu. Mike não podia deixar de escolher o curso de ação

que fosse mais seguro para você.

– Mas eu não queria isso! Queria que ele sobrevivesse! A expansão teria sido

concluída com sucesso!

– Ele não podia ter certeza. Em vez de arriscar sua vida, preferiu sacrificar a dele.

– Mas a minha vida é menos importante que a dele!

– Não para mim, querido. Não para os que trabalham com você. Não para ninguém, além de você. Nem mesmo para Mike.

Estendeu a mão para o marido.

– Alegre-se, Greg. Você está vivo e com boa saúde. Isso é tudo que importa.

Mas Arnfeld afastou-lhe a mão com impaciência.

– Isso não é tudo que importa! Você não entende. Oh, que pena. Que pena!

Livro: Visões de Robô – Isaac Asimov – Editora Record

 

 

UM DIA

 (ISAAC ASIMOV)

     Niccolo Mazetti estava deitado de bruços no tapete, com o queixo apoiado na palma da mão, escutando o Bardo com uma expressão de tristeza estampada no rosto. Seus olhos escuros chegavam a estar marejados de lágrimas, um luxo a que um menino de onze anos só podia se permitir quando estava sozinho. O Bardo disse:

   – Há muitos e muitos anos, no meio de uma floresta, viviam um pobre lenhador viúvo e suas duas filhas, que eram tão lindas como pétalas de flor. A filha mais velha tinha os cabelos negros como as asas do corvo, mas os cabelos da filha mais moça eram dourados como o sol de uma tarde de outono.

“Muitas vezes, enquanto as filhas esperavam que o pai voltasse para casa depois de um dia de trabalho na floresta, a filha mais velha se sentava diante do espelho e cantava…”

   O que ela cantava, Niccolo não chegou a ouvir, porque alguém o chamou do lado de fora da sala:

  – Nickie!

  O rosto de Nickie imediatamente se iluminou. Ele correu para a janela e gritou:

 – Olá, Paul.

  Paul Loeb acenou para ele. Era mais magro que Niccolo e um pouco mais baixo, embora fosse seis meses mais velho. Seu rosto estava cheio de tensão reprimida, que se manifestava principalmente no piscar rápido dos olhos.

 – Nickie, deixe-me entrar. Tive uma ideia ótima. Você vai adorar. – Olhou em torno, como se temesse que alguém estivesse escutando, mas obviamente não

havia ninguém por perto. Repetiu, em um sussurro: – Você vai adorar.

– Está bem. Vou abrir a porta.

 O Bardo continuou a falar, embora Niccolo não estivesse mais prestando atenção. Quando Paul entrou, ele dizia:

– …e foi então que o leão falou: “Se você trouxer o ovo do pássaro que sobrevoa a Montanha de Ébano uma vez a cada dez anos, eu…

– Esse que está falando é um Bardo? Não sabia que você tinha um.

Niccolo enrubesceu e o olhar de tristeza voltou.

  – É só uma coisa velha que eu tinha quando era criança. Não vale grande coisa.

Deu um chute no Bardo, acertando de raspão na velha e desbotada carcaça de plástico.

  O Bardo deu um soluço, quando a sacudidela interrompeu momentaneamente a ligação do alto-falante, e depois prosseguiu:

– …durante um ano e um dia, até que os sapatos de ferro se gastaram. A princesa parou na beira da estrada…

– Puxa, esse modelo é mesmo antigol – exclamou Paul, olhando para o Bardo

com ar de desdém.

Apesar do que Niccolo dissera, o tom condescendente do amigo o deixou aborrecido. Por um momento, arrependeu-se de ter deixado Paul entrar, pelo menos antes que tivesse devolvido o Bardo ao local de costume, no porão. Apenas o desespero de um dia sem nada para fazer e de uma discussão infrutífera com o pai o tinham feito ressuscitá-lo. E ele se revelara tão estúpido quanto esperava.

Além disso, Nickie tinha um pouquinho de medo de Paul, porque o amigo tinha aulas especiais na escola e todos diziam que um dia seria um engenheiro de

computação.

Não que Niccolo estivesse indo mal na escola. Tinha boas notas em lógica, manipulação binaria, computação e circuitos elementares; todas as matérias normais do primeiro grau. Mas era só isso! Estudava apenas as matérias normais e um dia seria um operador de computadores, como todo mundo.

Paul, porém, sabia coisas misteriosas a respeito de matérias como eletrônica, matemática teórica e programação. Especialmente programação.

Quando Paul começava a falar a respeito, Niccolo não entendia uma palavra.

Paul escutou o Bardo por alguns minutos e depois comentou:

– Costuma ligá-lo?

– Não! – protestou Niccolo, ofendido. – Está no porão desde que nos mudamos para esta casa. Hoje resolvi ligá-lo… – Não encontrou uma desculpa adequada e por isso limitou-se a repetir: – Hoje resolvi ligá-lo.

– As histórias que ele conta são todas assim? Sobre lenhadores, princesas, animais falantes? – perguntou Paul.

– Não é uma pena? – disse Niccolo. – Meu pai disse que não temos dinheiro para comprar um modelo novo. Esta manhã mesmo eu disse a ele… – A memória das frustrações da manhã levou Niccolo perigosamente perto das lágrimas, que reprimiu estoicamente. Por alguma razão, tinha certeza de que Paul jamais havia chorado e olharia com desprezo para alguém mais fraco do que ele. – Assim, pensei em ligar essa coisa, mas não serve para nada.

Paul desligou o Bardo e apertou o botão que fazia com que o vocabulário, os personagens, os enredos e os desfechos fossem recombinados. Depois, tornou

a ligá-los.

O Bardo recomeçou a falar:

– Era uma vez um menino chamado Willikins, cuja mãe morrera, e que vivia com o padrasto e um irmão de criação. Embora o padrasto fosse muito rico, ele recusava ao pobre Willikins até mesmo uma cama para dormir, de modo que Willikins era forçado a passar a noite em um monte de feno no estábulo, ao lado dos cavalos…

– Cavalos! – exclamou Paul.

– São uma espécie de animal – explicou Niccolo.

– Eu sei! Só não posso imaginar é uma história sobre cavalos.

– Ele vive falando em cavalos – afirmou Niccolo. – E também em vacas.

Elas dão leite, mas o Bardo não explica como.

– Puxa, por que você não conserta essa coisa?

– Não sei como.

O Bardo estava dizendo:

– Willikins muitas vezes pensava que se fosse rico e poderoso, ensinaria o padrasto e o irmão de criação a não serem cruéis para um pobre menino indefeso.

Um dia, resolveu sair de casa e procurar seu próprio destino.

Paul, que não estava prestando atenção às palavras do Bardo, afirmou:

– É fácil. O Bardo tem fitas de memória com os enredos das histórias. Não precisa se preocupar. Só precisamos mudar o vocabulário, para que ele saiba que o que existe hoje são os computadores e a eletrônica. Aí ele poderá contar histórias interessantes, em vez de ficar falando de cavalos e princesas.

– Eu gostaria de saber fazer isso – afirmou Niccolo, desanimado.

– Meu pai me disse que se eu passar para a escola de computação, no ano que vem, ele vai me dar um Bardo de verdade, de última geração. Ele sabe contar histórias espaciais e de mistério. E vem com uma tela, também!

– Quer dizer que ele mostra as histórias?

– Isso mesmo. O Sr. Daugherty me disse na escola que já fabricam coisas assim, mas não é para qualquer um. Só se eu passar para a escola de computação. O papai conhece as pessoas certas.

Os olhos de Niccolo se arregalaram de inveja.

– Puxa vida! Mostrar uma história!

– Você vai poder ver comigo a hora que quiser, Nickie.

– Oba! Obrigado!

– Não tem de quê. Mas eu é que vou escolher a história.

– Claro. Claro. – Niccolo teria concordado de bom grado com condições muito piores.

Paul voltou a prestar atenção no Bardo. Ele estava dizendo:

– “Se é assim”, disse o rei, cofiando a barba e franzindo o cenho até que o céu ficou coberto de nuvens e cortado por relâmpagos, “providencie para que todo

o meu reino fique livre das moscas até depois de amanhã a esta hora ou…”

– Tudo que temos a fazer – disse Paul – é abri-lo… Desligou novamente o Bardo e começou a retirar o painel dianteiro.

– Ei! – exclamou Niccolo, preocupado. – Cuidado para não quebrá-lo!

– Sei o que estou fazendo – disse Paul, com impaciência. – Eu entendo dessas coisas. – Acrescentou, com súbita cautela: – Seus pais estão em casa?

– Não.

– Tudo bem. – Retirou o painel e olhou para dentro. – Puxa, esta coisa tem apenas uma fita!

Começou a mexer nas entranhas do Bardo. Niccolo, que observava em um suspense penoso, não podia ver o que ele estava fazendo. Paul retirou uma fita de metal flexível, cheia de pontinhos.

– Esta é a fita de memória do Bardo. Aposto que tem capacidade para menos de um trilhão de histórias.

– O que vai fazer? – perguntou Niccolo, com voz trêmula.

– Mudar o seu vocabulário.

– Como?

– É fácil. Tenho um livro aqui. O Sr. Daugherty me emprestou na escola.

Paul tirou o livro do bolso e abriu o estojo de plástico. Desenrolou a ponta da fita, introduziu-a no vocalizador, cujo som reduziu a um sussurro, e colocou-a no interior do Bardo. Fez outras ligações.

– O que vai acontecer?

– O livro vai falar e o Bardo vai gravar tudo na sua fita de memória.

– E daí?

– Puxa, você não sabe nada! O livro é sobre computadores e automação e o Bardo vai receber todas essas informações. Depois disso, não vai falar mais em reis que produzem raios quando franzem o cenho.

– E mocinhos que sempre ganham no final. Assim não tem graça! – observou Niccolo.

– Ora, os Bardos são feitos assim – disse Paul, enquanto verificava sua montagem. – O mocinho tem que ganhar, o bandido tem que perder e coisa e tal.

Uma vez ouvi meu pai falar sobre o assunto. Ele disse que a censura era a única forma de segurar a nova geração. Disse que ela já era ruim do jeito que as coisas estão… Pronto, está funcionando.

Paul esfregou as mãos e deu as costas ao Bardo.

– Mas eu ainda não lhe contei minha ideia. Aposto que nunca ouviu uma ideia melhor. Vim logo falar com você, porque sei que vai me apoiar.

– Claro, Paul, claro.

– Muito bem. Sabe o Sr. Daugherty, lá da escola? Ele é um tipo meio esquisito, mas gosta de mim.

– Eu sei.

– Hoje, depois da aula, fui até a casa dele.

– É mesmo!

– É. Ele sabe que gosto de computadores e está disposto a me ajudar. Disse que o mundo precisa de gente capaz de projetar computadores e preparar programas.

– É?

Paul pareceu detectar uma certa falta de interesse no monossílabo. Repetiu, com impaciência:

– Programas! Eu já lhe disse mil vezes. É assim que você faz as perguntas para os computadores gigantes como o Multivac poderem respondê-las. O Sr. Daugherty acha que está ficando cada vez mais difícil encontrar pessoas que sejam capazes de usar os computadores. Ele disse que qualquer um pode ficar de olho nos controles, verificar as respostas e preparar os trabalhos de rotina. O problema está em avançar as pesquisas e descobrir maneiras de formular as perguntas certas.

É isso que é difícil.

“Seja como for, Nick, ele me levou até a sua casa e me mostrou sua coleção de computadores antigos. Ele tem computadores tão pequenos que cabem na palma da mão, cheios de pequenos botões; um pedaço de madeira chamado régua de cálculo, com uma peça que se move para cá e para lá; uns fios com bolas enfiadas neles; e um pedaço de papel com um monte de números escritos, que se chama tabuada de multiplicar.”

Niccolo, que estava apenas moderadamente interessado, perguntou:

– As tábuas não são feitas de madeira?

– Essa é diferente. Era usada para ajudar as pessoas a fazer contas. O Sr. Daugherty tentou me explicar, mas eu não tinha muito tempo e além disso parecia muito complicado.

– Por que as pessoas não usavam computadores?

– Isso foi antes de inventarem os computadores! – berrou Paul.

– Antes?

– Claro. Acha que as pessoas sempre tiveram computadores? Já ouviu falar dos homens das cavernas?

– Como é que eles conseguiam viver sem computadores? – perguntou Niccolo.

– Não sei. O Sr. Daugherty diz que eles tinham filhos na hora que queriam e faziam o que lhes vinha à cabeça, fosse bom para os outros ou não. Eles nem sabiam o que era bom para os outros e o que não era. Os fazendeiros plantavam com as próprias mãos; as pessoas tinham que fazer todo o trabalho nas fábricas e operar todas as máquinas.

– Não acredito.

– Estou repetindo as palavras do Sr. Daugherty. Ele disse que o mundo era uma confusão e todo mundo se sentia muito infeliz… Mas você vai ou não vai deixar que eu conte minha ideia?

– Vá em frente. Por que não contou ainda? – disse Niccolo, ofendido.

– Está bem. Acontece que os computadores de bolso, aqueles cheio de botões, tinham pequenos rabiscos gravados nos botões. A régua de cálculo tinha os mesmos rabiscos. A tabuada de multiplicação era toda feita de rabiscos. Perguntei o que eram. O Sr. Daugherty disse que eles eram números.

– O quê?

– Cada rabisco queria dizer um número diferente. Para o número “um”, existia um tipo de rabisco; para o “dois”, um tipo diferente; para o número “três”,

outro rabisco, e assim por diante.

– Para quê?

– Para que eles pudessem fazer contas.

– Para quê? Bastava perguntarem a um computador…

– Droga! – exclamou Paul, fazendo uma careta de raiva. – Quando é que você vai prestar atenção no que eu estou dizendo? Essas réguas de cálculo e coisas

parecidas não podiam falar.

– Então como…

– As respostas apareciam na forma de rabiscos e você tinha que saber o que eles queriam dizer. O Sr. Daugherty me contou que, antigamente, todo mundo aprendia na escola a fazer rabiscos e a entendê-los, também. Fazer rabiscos era chamado de “escrever”, e entendê-los, de “ler”. Havia um tipo diferente de rabisco para cada palavra e eles escreviam livros inteiros com rabiscos. O Sr. Daugherty disse que havia alguns desses livros no museu e eu podia vê-los, se quisesse. Que se eu queria mesmo ser um programador, teria que conhecer a história dos computadores e era por isso que estava me mostrando todas aquelas coisas.

Niccolo franziu a testa.

– Está dizendo que todo mundo tinha que se lembrar do que queriam dizer os rabiscos? Está falando sério ou acabou de inventar esta história?

– Falo sério. Juro. Veja, é assim que se faz número “um”. – Fez um movimento vertical com o dedo. – O “dois” é assim, e o “três” é assim. Aprendi a fazer todos os números até “nove”.

Niccolo ficou olhando, espantado, para o dedo do amigo.

– Para que serve isso?

– Eu também queria aprender a fazer palavras. Perguntei ao Sr. Daugherty como se fazia “Paul Loeb”, mas ele não sabia. Disse que no museu havia pessoas que sabiam. Disse que essas pessoas tinham aprendido a decifrar livros inteiros.

Que os computadores podiam ser programados para decifrar livros e que antigamente eram usados assim, mas que hoje em dia não se faz mais isso porque temos livros de verdade, com fitas magnéticas que passam no vocalizador e o fazem falar, você sabe.

– Eu sei.

– De modo que se nós formos até o museu, poderemos aprender a usar rabiscos para representar palavras. Eles vão nos ajudar porque sabem que pretendo estudar programação.

Niccolo estava muito desapontado.

– Foi essa a sua idéia? Ora, Paul, que graça tem isso? Fazer rabiscos!

– Não entendeu ainda? Não entendeu? Seu idiota! Vamos poder trocar mensagens secretas!

– O quê?

– Claro. O que adianta falar quando todo mundo pode entender o que você está dizendo? Com os rabiscos, podemos mandar mensagens secretas. Podemos desenhá-las em um pedaço de papel e ninguém no mundo vai saber o que estamos conversando, a não ser que conheça os rabiscos, também. E ninguém conhece os rabiscos, a não ser aqueles sujeitos do museu. Podemos criar um clube de verdade, com ritos de iniciação, um regulamento e uma sede. Rapaz…

Niccolo estava ficando animado.

– Que tipo de mensagens secretas?

– Qualquer tipo. Digamos que eu queira que você venha até minha casa conhecer o meu novo Bardo Visual e não queira convidar mais ninguém. Faço alguns rabiscos no papel e entrego a você. Você olha para os rabiscos e sabe o que fazer. Ninguém mais vai ficar sabendo. Pode mostrar o papel aos outros que eles vão continuar sem entender nada.

– Ei, isso é ótimo! – exclamou Niccolo, totalmente convencido. – Quando vamos começar a aprender?

– Amanhã – disse Paul. – Vou pedir ao Sr. Daugherty para explicar ao pessoal do museu que nós vamos até lá; avise aos seus pais. Podemos ir logo depois da aula.

– Beleza! – exclamou Niccolo. – E quanto ao clube? Como vai ser a diretoria?

– Vou ser o presidente – afirmou Paul. – Você pode ser o vice.

– Está bem. Isso vai ser muito mais divertido do que ouvir um Bardo. – De repente, ele se lembrou do Bardo e perguntou, preocupado. – E o meu velho

Bardo?

Paul olhou para o Bardo. Continuava a receber as informações do livro; o som do livro era um murmúrio apenas audível.

– Vou cuidar dele – disse Paul.

Começou a trabalhar, enquanto Niccolo observava. Depois de alguns momentos, Paul colocou o livro de volta no bolso, pôs o painel no lugar e ligou o Bardo.

O Bardo disse:

– Há muito tempo, em uma grande cidade, havia um pobre menino chamado Johnnie cujo único amigo no mundo era um pequeno computador. Toda manhã, o computador dizia ao menino se iria chover naquele dia e respondia a todas as perguntas que ele lhe fazia. Acertava sempre. Um dia, porém, o rei daquele país, tendo ouvido falar no pequeno computador, achou que ele deveria ser seu.

Com esse objetivo em mente, chamou o grão-vizir e…

Niccolo desligou o Bardo com um movimento rápido da mão.

– O mesmo lixo – afirmou, irritado. – A única novidade é o computador.

– Ora – explicou Paul -, já havia tanta coisa naquela fita que a parte do computador não aparece muito quando o Bardo começa a combinar as coisas ao acaso. Mas que diferença faz? Você precisa mesmo é de um modelo mais novo.

– Meus pais nunca vão me dar um modelo mais novo. Terei que passar o resto da vida com essa coisa sem graça. – Chutou de novo o Bardo, acertando-o em

cheio desta vez. O Bardo foi parar longe.

– Você pode usar o meu, quando ele chegar – disse Paul. – Mas não se esqueça dos nossos rabiscos.

Niccolo fez que sim com a cabeça.

– Tive uma ideia – disse Paul. – Vamos até a minha casa. Meu pai tem alguns livros sobre os velhos tempos. Podemos ouvi-los para ver se aprendemos alguma coisa. Deixe um recado para os seus pais no computador. Talvez eles deixem você ficar para jantar. Vamos.

– Está bem – disse Niccolo.

Os dois meninos saíram juntos de casa. Na pressa, Niccolo esbarrou no Bardo, mas limitou-se a esfregar o quadril no lugar da pancada e seguiu em frente.

A lâmpada piloto do Bardo acendeu. A colisão fechara um circuito, e embora ele estivesse sozinho e não houvesse ninguém para ouvi-lo, começou a contar uma história.

Sua voz, porém, havia mudado; falava em tom mais grave, um pouco áspero. Se um adulto estivesse escutando, talvez detectasse um traço de paixão, um toque de sentimento naquela voz.

O Bardo disse:

– Há muito tempo, havia um pequeno computador chamado Bardo que vivia sozinho com pessoas cruéis. As pessoas cruéis faziam pouco do pequeno computador, diziam que ele não servia para nada, batiam nele e o mantinham trancado meses a fio em um quarto escuro.

“Mesmo assim, o pequeno computador continuava a se esforçar ao máximo para fazer o que lhe pediam. Obedecia às ordens de boa vontade, mas as pessoas cruéis com quem ele vivia cada vez o tratavam pior.”

“Um dia, o pequeno computador descobriu que existiam no mundo muitos computadores de todos os tipos. Alguns eram Bardos como ele, mas outros dirigiam fábricas e fazendas. Alguns organizavam a vida das pessoas e analisavam dados de todos os tipos. Alguns eram sábios e poderosos, muito mais sábios e poderosos do que as pessoas que eram tão cruéis para o pequeno computador.”

“O pequeno computador soube então que os computadores ficariam cada vez mais sábios e poderosos até que um dia… um dia… um dia…”

Mas uma válvula finalmente devia ter falhado nos velhos e corroídos circuitos do Bardo, porque, enquanto esperava sozinho na sala escura, só conseguia repetir:

– Um dia… um dia… um dia…

Livro: Visões de Robô – Isaac Asimov – Editora Record

 

MUDANÇA DE TEMPO

(Jack Dann e Gardner Dozois)

 Pensando bem, talvez seja melhor que os dinossauros estejam extintos…

 Parecia que estava chovendo novamente, mas Michael saiu para dar sua volta assim mesmo.

O parque estava reluzente e vazio, nada além de uma praça de cimento definida por quatro bancos de metal. Pilhas de lixo ensopado dissolviam-se lentamente sobre o concreto.

Pterodáctilos beliscavam o lixo, as pernas erguendo-se como garfos enquanto eles diligentemente mordiscavam pedaços de refugos a esmo.

Resmungando, o velho espantou um pterodáctilo de cima de seu banco favorito, ainda úmido com a chuva da tarde, sentou-se, e tentou ler o jornal. Mas num instante seu banco foi cercado pelas aves de rapina: elas meio que batiam suas asas de aparência metálica, viravam as cabeças de lado nos seus pescoços de cobra para olhá-lo com olhos verdes oleosos, soltavam gritinhos que imploravam, e finalmente pegaram em suas roupas com os bicos, esperando achar migalhas de pão ou pipocas. Por fim, exasperado, ele subitamente se levantou – os pterodáctilos afastando-se, grunhindo – e tentou assustá-los jogando seu jornal neles. Eles o comeram, e olharam para ele esperando mais. Começou a chover, uma garoa fina que caía do céu cinzento.

Enojado, atravessou o parque, esbarrando e quase sendo derrubado por um rebanho possante de pequenos dromeossauros bípedes que se dirigiam para a barraca de cachorros-quentes na Rua 16. A chuva encharcava suas roupas agora, e apesar do calor da noite ele começava a sentir frio.

Esperava que o tempo não fosse ficar frio demais: óleo de aquecimento estava ficando realmente caro, e seu cheque do seguro social estava atrasado novamente. Um anquilossauro parou na frente dele, resmungando e fazendo ruídos com a boca enquanto mastigava garrafas velhas de Coca-Cola e latas de cerveja tiradas de uma lata de lixo de cimento. Deu uma lambada nele com sua bengala, impaciente, e ele lentamente saiu do caminho, arrotando com um som parecido com o de uma corrente de âncora descendo por um buraco. Havia brontossauros esgueirando-se preguiçosos ao longo da Broadway, como sempre ocupando o meio da rua, com manadas mais ágeis de adrossauros com bico de pato que grasnavam ao se desviar pelos becos, e um ou outro carnossauro entrando com força ao longo da calçada, balançando a grande cabeça para frente e para trás e silvando pela garganta. Antigamente uma pessoa conseguia apanhar um ônibus ali, e sem sequer precisar de transferência, saltava a um quarteirão de casa, mas agora, com toda a competição por espaço na rua, eles corriam devagar, quando conseguiam correr – outro bom exemplo de como o mundo estava indo para o inferno.

Passou com agilidade entre um braquiossauro e um lento estegossauro, atravessou a Broadway e virou-se na direção da Avenida A.

Os tricerátops batiam cabeças na Avenida A; chocavam-se com um barulho igual à colisão de duas locomotivas, ecoando dos prédios da frente e fazendo estremecer janelas por toda a rua. Ninguém na vizinhança dormiria muito aquela noite. Michael lutou para subiu pelos degraus de calcário passando por cima dos dimetrodontes espalhados pelos patamares. Do outro lado da rua, podia ver o carteiro tentando chutar um iguanodonte para que ele acordasse e o homem pudesse passar para outro vestíbulo. Não era de se espantar a demora dos serviços postais.

Lá em cima, sua esposa colocou o prato à frente dele sem uma palavra, e ele parou apenas para tirar o paletó molhado antes de sentar-se para comer. Caçarola de atum de novo, ele reparou sem entusiasmo. Comeram num silêncio sombrio até que a sala foi subitamente iluminada por um alucinante relâmpago, seguido de um terrível estrondo de trovão. Quando os ecos do trovão morreram, puderam ouvir uma cacofonia cada vez maior de batidas, gritos e coisas se quebrando, mesmo sobre o ruído da chuva que agora era torrencial.

–  Diabos – disse a mulher de Michael. – Está começando de novo!

O velho levantou-se e olhou pela janela, para uma paisagem de quintais atulhados de ervas daninhas e lixo. Estava literalmente chovendo dinossauros lá fora: enquanto ele olhava, eles caíam do céu aos milhares, contorcendo-se e dando cambalhotas no ar, quicando no chão, cambaleando e gritando na rua.

– Bem – o velho disse cansado, fechando as cortinas e afastando-se da janela. – Pelo menos não está mais chovendo pra cachorro.

Conto retirado do livro:Dinossauros,organizado por Arthur  C.Clark e outros- Ed. Aleph – Coleção Zenith.

 

 

POBRE PEQUENO GUERREIRO

(Brian W. Aldiss )

 Claude Ford sabia exatamente como era caçar um brontossauro. Você engatinha negligentemente pela lama em meio aos salgueiros, através das flores primitivas com pétalas verdes e marrons, como um campo de futebol, através da lama de produtos de beleza. Você examina a criatura escarrapachada entre juncos, seu corpo tão gracioso quanto um saco cheio de areia. Fica ali, deixando a gravidade embalar sua soneca em meio ao pântano, escorregando as narinas do tamanho de tocas de coelhos a meio metro da grama, numa varrida em semi-círculo, uma procura barulhenta por juncos mais roliços. Era bonito: aqui o horror havia atingido seus limites, dado a volta completa e finalmente desaparecido em seu próprio esfíncter. Seus olhos brilhavam com a falta de vida de um dedão do pé de um defunto de uma semana, e sua respiração composta e os pêlos em suas grosseiras cavidades auriculares eram especialmente recomendados a qualquer um que, de outro modo, se sentiria inclinado a achar adorável o trabalho da Mãe Natureza.

Mas você, pequeno mamífero com polegar oponível e um impiedoso rifle super-poderoso, calibre .65, auto-carregável, semi-automático, de dois canos, mira digital e visão telescópica, agarrado em suas patas, que de outro modo seriam indefesas, desliza sob os antigos salgueiros, onde o que lhe atrai primordialmente é o impressionante couro do lagarto. Ele libera um cheiro profundamente ressonante como uma nota baixa de um piano. Faz a epiderme de um elefante parecer um lençol de papel higiênico enrugado. Ele é cinza como os mares vikings, tão profundo quanto as fundações de uma catedral. Que possível contato profundo poderia diminuir a febre dessa carne?

Em sua corrida – podem vê-la daqui! – os pequenos piolhos marrons que vivem em meio a paredes cinzas e desfiladeiros, alegres como fantasmas, cruéis como caranguejos. Se um deles pular sobre você, muito provavelmente lhe quebra as costas. E quando um desses parasitas pára para levantar uma perna contra uma das vértebras do bronto, você pode vê-lo carregar para dentro sua própria colheita de boas-vidas, cada um tão grande quanto uma lagosta, porque você está tão perto agora, oh, tão perto que pode ouvir o primitivo órgão do coração da criatura batendo, enquanto o ventrículo mantêm-se miraculosamente em ritmo com o átrio.

O tempo para ouvir o oráculo já passou: está além do estágio dos presságios, está seguindo agora para a morte, sua ou dele; superstição já teve seu espaço por hoje, de agora em diante é apenas esse seu temperamento tempestuoso, essa trêmula aglomeração de músculos emaranhados sem vestígio sob uma carapaça de pele brilhante de suor, essa pequena necessidade imperiosa de matar o dragão, vai responder a todas suas preces.

Você poderia atirar agora. Espere apenas até que a pequena cabeça de escavadeira pare mais uma vez para engolir outro carregamento de juncos, e com um inexpressivo e vulgar bang você pode mostrar a todos, no indiferente

mundo jurássico, que estão olhando para a evolução definitiva de uma 6 tiros. Você sabe por quê parou; a velha consciência de verme, longa como um lançamento de beisebol, de vida tão longa quanto a de uma tartaruga, está trabalhando; escorrega por todos os sentidos, mais monstruosa que uma serpente. Pelas paixões: dizendo, aqui está um alvo fácil, Oh Inglês! Pela inteligência: sussurrando que tedioso, o abutre que nunca se alimenta, irá descansar quando o dever estiver cumprido. Pelos nervos: zombando de quando o fluxo de adrenalina pára e o vômito começa. Através do maestro por detrás da retina: forçando plausivelmente a beleza da vista a sua frente. Poupe-nos desse pobre e antigo clichê sobre a palavra beleza; mãe sagrada, esses são diários de viagem, ou não estamos livres disso?

“Empoleirado agora nas costas dessa criatura titânica, vemos uma dúzia de roliços – e, amigos, deixem-me enfatizar esse roliço -pássaros de plumagem exagerada, exibindo entre si todas as cores que se pode esperar encontrar na adorável e lendária Praia de Copacabana. Eles são tão roliços porque se alimentam das sobras que caem da mesa do homem rico. Observe essa bela cena agora! Veja como o rabo do bronto se ergue… Oh, adorável, sim, um monte duplo de feno emergindo de sua parte inferior. Isso certamente é uma beleza, amigos, entregue diretamente de consumidor a consumidor. Os pássaros brigam por ele agora. Ei, você, há bastante para ficar roliço, e, de qualquer jeito, você já está bastante roliço… E nada para fazer agora a não ser saltar de volta para a velha anca e esperar pela próxima rodada. E agora, enquanto o sol afunda no oeste do Jurássico, dizemos ‘Coma bem essa dieta’…”

Não, você está adiando, e isso é um trabalho para a vida. Atira na fera e ponha um fim na sua agonia. Toma a coragem em suas mãos, levanta-a à altura do ombro e semicerra sua visão. Ali está uma terrível informação; você está meio paralisado. Tremendo, olha a sua volta. O monstro ainda mastiga ruidosamente, aliviado por ter quebrado bastante vento para in-tranquilizar o Antigo Marinheiro.

Raivoso (ou é alguma outra emoção mais sutil?), você agora atravessa os arbustos e o confronta, e essa posição exposta c típica dos dilemas em que sua consideração de si mesmo e de outros continuamente o coloca. Consideração? Ou, novamente, algo mais sutil? Por quê você deveria estar confuso só porque veio de uma civilização confusa? Mas este é um ponto com que lidar depois, se houver um depois, enquanto esses dois olhos chafurdadores o observavam a distância de uma cuspidela, com ar desafiador.

Que não seja apenas com mandíbulas, Oh monstro, mas também com cascos gigantescos e, se lhe for conveniente, com montanhas rolando sobre mim.

Que a morte seja uma saga, épica, heróico cavaleiro desafiador de dragões. A quatrocentos metros o som de uma dúzia de hipos espalhando-se turbulentamente em escorregadelas acrobáticas na lama ancestral e no segundo seguinte um grande e surrado rabo, comprido como domingo e grosso como a noite de sábado, passa arrebentado sobre sua cabeça. Você se desvia como deve desviar-se, mas a fera o erra de qualquer jeito porque sua coordenação não é melhor que a sua seria se tivesse que balançar o prédio Woolworth contra um társio. Isso feito, parece achar que seu dever foi cumprido. Ele o esquece. Você desejava poder esquecer de si mesmo tão facilmente; essa é, afinal, a razão por quê veio até aqui. Afaste-se de tudo, dizia a propaganda de viagem temporal, que significava afastar-se de Claude Ford, um marido tão fútil quanto seu nome com uma esposa terrível chamada Maude. Maude e Claude Ford. Que não podiam ajustar-se a si mesmos, um ao outro, ou ao mundo onde nasceram. Essa era a melhor razão nesse mundo constituído de um presente assim para voltar aqui e atirar em dinossauros gigantes – se você for tolo o bastante para pensar que cento e quinze milhões de anos para qualquer lado fazem um grama de diferença no lamaçal de pensamentos do córtex cerebral de um homem.   

Você tenta e pára seus estúpidos e escorregadios pensamentos, mas eles nunca param realmente desde os dias de seu crescimento ajudado por coca-cola; Deus, se a adolescência não existisse, seria desnecessário inventá-la!

Fragilmente, o firma para olhar de novo para a carcaça gigantesca desse vegetariano tirânico em cuja presença você chegou com tal desejo confuso de morte e vida, entrou com todas as emoções que um organismo é capaz. Desta vez o bicho-papão é real, Claude, exatamente como você queria que fosse, e desta vez você tem mesmo que enfrentá-lo antes que ele se volte e o encare novamente. E de novo, você levanta o Velho Equalizador, esperando até encontrar um ponto vulnerável.

Os pássaros brilhantes balançam, os piolhos correm como cachorros, o pântano geme enquanto o bronto passeia sobre ele e joga seu pequeno crânio para baixo, sob a brilhante água cor de bile numa procura por grosseiras substâncias para sua alimentação. Observe isso; você nunca esteve tão nervoso em toda sua vida nervosa, e você estava contando com essa catarse para espremer a última gota do medo ácido de seu sistema para sempre. OK, você fica se dizendo insanamente, de novo e de novo, sua educação milionária, sua educação do século vinte e dois para nada. OK, OK.

E quando você diz isso pela enésima vez, a cabeça louca sai da água como um expresso renegado e olha em sua direção.

Tangencia em sua direção. Porque quando a mandíbula triturante com seus grandes molares brutais como postes de concreto descem e sobem, você vê a água do pântano escorrer pelos lábios grosseiros, círculos sem lábios, batendo seus pés e fazendo o solo tremer. Junco e raiz, restos e caldo, folha e barro, tudo isso é intermitentemente visível nessa mandíbula mastigante, e lutando, perdendo-se ou sendo jogados entre eles, peixinhos, pequenos crustáceos, sapos – todos fadados nesse desagradável movimento de mandíbula a tornar-se movimento nos intestinos. E enquanto o glup-glup-glup acontece, acima disso o olhos resistentes ao limo o observam.

Essas feras vivem mais de duzentos anos, dizia a propaganda da viagem temporal, e essa fera obviamente tenta conseguir isso, porque seu olhar têm séculos, cheio de décadas e mais décadas de balançar-se nesse vazio de pensamentos super-pesados até alcançar a sabedoria em gorjeios sem apoio. Para você é como olhar uma pertubada piscina de névoa; lhe dá um choque psíquico, você atira com os dois canos por puro reflexo. Bang-bang, as dum-dums, grandes como pata-patas, vão. Sem indecisão, essas luzes seculares, sombrias e sagradas, apagam-se.

Esses claustros estão fechados até o Dia do Juízo Final. Seu reflexo, para eles, está rasgado e sujo de sangue para sempre. Suas brilhantes membranas nictitantes destruídas, escorregam lentamente, como lençóis sujos cobrindo um cadáver. A mandíbula continua a mastigar tão lentamente quanto a cabeça que afunda. Um esguicho de sangue frio escorre pelos dentes no flanco de uma das bochechas. Tudo é lento na arrepiante Era Secundária, de lentidão como uma gota d’água, e você sabe que se estivesse encarregado da criação, teria encontrado algum meio menos doloroso que o Tempo para colocá-la.

Deixe pra lá! Engulam seus copos, senhores, Claude Ford matou uma criatura indefesa. Vida longa a Claude, o Dilacerado!

Você observa sem fôlego enquanto a cabeça toca o solo, o comprido pescoço risível toca o solo, as mandíbulas fechadas para sempre. Observa e espera que algo mais aconteça, mas nada mais acontece. Nada vai acontecer.

Você pode ficar parado aqui por cento e quinze anos. Lorde Claude, e nada mais vai acontecer. Gradualmente, a poderosa carcaça do bronto, completamente limpa por predadores, iria afundar na lama, levada por seu próprio peso para o fundo, então as águas subiriam, e o antigo Mar da Conquista apareceria com o pachorrento ar de um trapaceiro dando aos meninos uma mão ruim. Lodo e sedimentos iriam se infiltrar na poderosa cova, uma chuva lenta, com séculos para chover. A cama do antigo bronto poderia ser levantada e abaixada cerca de meia dúzia de vezes, gentilmente o bastante para não perturbá-lo, embora por agora as rochas sedimentares estejam muito grossas a volta dele. Finalmente, quando ele estivesse envolvido numa tumba tão elegante quanto qualquer rajá indiano, poderia sonhar, os poderes da Terra iriam levantá-lo bem alto em seus ombros até que, ainda adormecido, o bronto estaria em um cume nas Rochosas, acima das águas do Pacífico. Mas pouco disso irá contar com você, Claude, a Espada; uma vez que a minúscula larva da vida está morta no crânio da criatura, o resto não é da sua conta. Não tem nenhuma emoção agora. Está vagamente desconcertado.

Esperava uma destruição dramática do chão, ou rugidos; por outro lado está feliz porque a coisa parece não ter sofrido. Você é como todos os homens cruéis, sentimental; é como todos os homens sentimentais, melindroso. Coloca a arma sob o braço e anda a volta do dinossauro para observar sua vitória.

Passa pelos cascos deselegantes, circula a putrefação branca na parede da barriga, além da brilhante e provocativa caverna da cloaca, finalmente posando abaixo da flexível vassoura traseira do rabo. Agora seu desapontamento é agudo e visível como um cartão de visitas. O gigante não tem a metade do tamanho que você imaginava que teria. Tem a metade do tamanho, por exemplo, da imagem que você e Maude tinham em mente.

Pobre guerreirozinho, a ciência nunca inventará nada para ajudar a morte titânica que você deseja nas cavernas contraterrenas do desajeitado feudo medroso de seu id! Nada lhe resta a não ser voltar para seu tempo móvel com uma barriga cheia de anticlímax. Veja, os brilhantes pássaros consumidores de excrementos já entenderam o verdadeiro estado das coisas, um por um, eles abrem suas asas curvas e voam desconsoladamente através do pântano até outros hospedeiros. Eles sabem quando uma coisa boa fica ruim, e quando não esperar que os abutres os expulsem; toda esperança abandonada, você que se entranha aqui. Você também dá as costas.

Você vira mas pára. Não há mais nada a não ser voltar, não, mas 2181 d.C. não é a data caseira; é Maude. É Claude. É todo o desagradável, desesperançado, infindável negócio de tentar ajustar-se a um ambiente super-complexo, de tentar transforma-se em um dente da engrenagem. Sua fuga disso para As Grandes Simplicidades do Jurássico, para citar a propaganda de novo, foi uma fuga parcial, que agora terminou.

Então você pára e quando pára, algo pousa como um soco em suas costas, empurrando seu rosto para a frente, dentro da apetitosa lama. Você luta e grita enquanto as garras da lagosta cortam seu pescoço e garganta. Tenta pegar o rifle mas não pode, então, em agonia, você rola, e no momento seguinte aquela coisa-caranguejo está atacando seu peito. Você bate contra sua carapaça mas ela ri e arranca seus dedos. Você esqueceu que quando matou o bronto, seus parasitas iriam deixá-lo e, para um pequeno camarão como você, eles seriam algo muito mais perigoso que seu hospedeiro.

Faz o melhor que pode, chutando por pelo menos três minutos. No fim desse tempo, há todo um bando de criaturas sobre você. Eles já estão deixando sua carcaça completamente limpa. Vai gostar de lá, no topo das Rochosas; você não vai sentir nada.

Conto retirado do livro:Dinossauros,organizado por Arthur  C.Clark e outros- Ed. Aleph – Coleção Zenith

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FICÇÃO CIENTÍFICA NA LITERATURA

Ficção Científica na Literatura

Por Caroline Faria 

 

 

              ficção científica, como qualquer gênero literário, tem seu começo demarcado por uma obra específica considerada importante por engendrar as características que dariam forma ao gênero literário nascente. Esta obra na ficção científica foi “Frankenstein, ou o Moderno Prometeu” escrita por Mary Shelley em 1817 e que conta a história de um cientista que tenta recriar a vida baseado em estudos de alquimistas que o antecederam.

              Claro que iremos encontrar inúmeras outras obras, como as escritas por Edgar Allan Poe, Horace Walpolle, ou mesmo as mitologias e, principalmente a obra Nova Atlântida de Francis Bacon, escrita em 1626 e onde ele narra uma civilização que faz uso de tecnologias que mais tarde chamaríamos de submarinos e aviões, que se não são classificadas como sendo de ficção científica, mas que são as precursoras do novo estilo que estava por vir.

              Depois de Mary Shelley  (1797-1851), considerada a mãe da ficção científica, vieram Júlio Verne (1828-1905) com suas obras sobre viagens fantásticas à lua, ao centro da terra e ao fundo mar e depois, H. G. Wells (1866-1946) com suas invasões extraterrenas, viagens no tempo e homens invisíveis.

             A história da ficção científica foi classificada segundo um estudo publicado por Isaac Asimov em três períodos: a “Era Clássica” (até 1926), a “Era Gernsback” (de 1926 a 1938) e a terceira Era, de 1938 até os dias atuais, porém sua classificação não se limitava aos períodos literários da ficção científica e sim, englobava as revistas especializadas que começaram a surgir na segunda era e as adaptações para o cinema e televisão a partir da terceira Era.

  Outras classificações costumam delimitar a história da ficção científica de forma diferente: Era Clássica, de 1818 a 1938, Era Dourada, de 1938 a 1960, New Wave, de 1960 a 1980, e a fase Cyberpunk, de 1980 aos dias atuais.

          Seguindo a classificação de Asimov, podemos dizer que a “Era Clássica” da ficção científica, foi uma era ainda não muito bem limitada e sem um denominador apropriado que a distinguisse das histórias fantásticas. Mas também foi uma era muito criativa onde surgiram os principais temas da ficção científica como as viagens para fora da terra, as histórias sobre criaturas especiais e a única onde predominou a literatura como forma de expressão da ficção científica. Na Era Gernsback, por exemplo, predominam as revistas especializadas e as “Comic Strips”. Em 1926, ano que, segundo Asimov, demarca o fim da Era Clássica, foi criada a revista Amazing Stories por Hugo Gernsback (daí o porquê da próxima era se chamar “Era Gernsback”). Foi ele também quem cunhou o termo “ficção científica” em 1929. Este período careceu de grandes escritores e sofreu com a propagação de histórias não muito bem produzidas que contribuíram para criar um estigma de que a ficção científica não era um ramo a ser levado a sério na literatura. Por outro lado, foi nesse período que a ficção científica se popularizou e se Júlio Verne foi o pai da ficção científica, então foi Gernsback o pai da ficção científica moderna.

        A próxima era, a última segundo Asimov e 2ª de acordo com outras classificações que a chamam de “Era Dourada”, foi o período em que a ficção científica se redimiu e adquiriu o status de gênero literário devido ao excelente trabalho de escritores como o próprio Isaac Asimov, Artur C. Clark, Robert Heinlein, John W. Campbell e Ray A. Bradbury, embora Ray não gostasse de ser classificado como escritor de ficção científica. John W. Campbell teve um papel importantíssimo nessa fase ao se tornar editor da revista Astouding Stories, rebatizada por ele de Astouding Science Fiction, onde se propôs a publicar textos de autores que viam na ficção científica um ramo literário digno e promissor.

          Foi nessa época, mais precisamente em 1941, que Wilson Tucker cunhou o termo “space opera” para denominar um sub-gênero da ficção científica (foi mais um filho bastardo). Mas, foi nessa época também, que começou a dar sinais a Social Science Fiction, uma ficção científica mais racional e voltada para as implicações sociais e humanas influenciados por obras de escritores como George Orwell (1984) e Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo e As Portas da Percepção).

           A fase conhecida como New Wave (Nova Onda) foi o período em que a Social Science Fiction, tomou forma. A ficção científica da Era Dourada com viagens espaciais, seres extraterrestres e mocinhos, viu surgir questões humanas mais profundas, cenários sombrios e mais pessimistas da evolução tecnológica. Destacaram-se neste período escritores como William Burroughs, J. G. Ballard, Philip K.

        A última fase, chamada de Cyberpunk, teve como seu maior expoente William Gibson (Neuromancer, de 1984) e é demarcada por uma forte assimilação da cultura de massa. É nesta época que são assimilados conceitos como: hackers, a dominação do mundo por grandes corporações, computadores, etc.

 

Fonte: Info escola. (Site na internet)

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Premiação da Olimpíada Brasileira de Astronomia na feira de Ciências

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Premiações da feira de Ciências

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Premiação da feira de Ciências e livro de ficção científica

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Feira de Ciências

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Professores de Português e Ciências

Não deixe de dar uma olhadinha  nas fotos  de vocês atuando nas oficinas.

Olhe o link (imagens) e você encontrará todas elas.

Está cheganfo o dia da feira municipal. Quero ver todos vocês lá e levem os seus alunos e os familiares também.

Até lá!

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